Músicas de Raphael

sábado, 16 de outubro de 2010

Letras

Já escrevi uma vez sobre minha dificuldade de pensar em português.

Depois de morar nos Estados Unidos e na Dinamarca, e atualmente estar morando na Suécia, por um bom tempo eu só pensava na minha língua materna quando estava assistindo futebol, vendo algum filme brasileiro, ou ouvindo música brasileira. Agora melhorei um pouco. E de qualquer jeito, conhecendo a minha pessoa, alguns diriam que eu não deveria ter problemas, pois faço essas coisas mais do que qualquer outra. 

Mas enfim, não é bem sobre isso que quero escrever.


Por acaso, há alguns minutos atrás, estava checando meu facebook, quando vi o update de um amigo que terminou me levando ao vídeo de uma banda brasileira (recifense?) com um tal de "Johnny Hooker". Bem, o primeiro pensamento mesmo foi "pô, o cara num arranja nem seu próprio nome artístico" (vide John Lee Hooker); o segundo, ao assistir o vídeo, foi "...e já existe um Mick Jagger no mundo"; e o terceiro, depois de ter terminado de assisti-lo e cruelmente julga-lo, foi algo que passei mais tempo pensando: escrever e cantar em inglês.
Não posso dizer com 100% de certeza, mas me parece que as músicas foram escritas pela banda dele, e elas são todas na língua do Tio Sam.

Há um bom tempo atrás, ao ler o encarte do disco do Caetano Veloso de 1971 - o primeiro que ele gravou em Londres durante seu exílio -, me deparei com essa citação: ""Um santo francês certa vez disse que é tão perigoso para um escritor experimentar escrever numa nova língua como para um religioso experimentar uma nova religião: ele pode perder sua alma." Logo me lembrei que, ao longo de uma época, eu mesmo escrevia em inglês.

Audácia que começara alguns meses depois d'eu me mudar pra Flórida em 2003, quando deixei a tristeza de lado, me empolguei com Shakespeare e Walt Whitman, e comecei a tentar escrever meus próprios versos naquele novo idioma.
Lembro que emprestava as palavras mais complicadas, absurdas, (e menos usadas) da língua inglesa, e tentava escrever sobre os assuntos mais banais possíveis. Afinal, eu só tinha 16 anos.

Ainda assim, levei o que tinha escrito pra uma das minhas professoras na Marjory Stoneman Douglas High School, e me surpreendi ao ouvir ela dizer que os versos não faziam sentido algum. Abalado, esperei pela próxima aula, e os mostrei a um outro professor, nativo de Trinidade e Tobago, que por sua vez achou tudo aquilo genial. Ele me elogiou e me incentivou muito, o que fez com que eu continuasse trazendo mais e mais versos a cada dia, inicialmente pra que ele os corrigisse, mas depois, ao ouvi-lo dizer que poesia é subjetiva e corrigi-la pode ser um erro, passei a trazê-los só para compartilha-los com alguém mesmo.

Nunca deixara de escrever em português, mas desde então a frequência com a qual eu o fazia era menor.  Blogs, livejournals, e novos amigos, todos eram em inglês.

O tempo passou, e eu esqueci um pouco o escrever para ler, e comecei a escrever para cantar.

Ao descobrir Beatles, fiquei tão fascinado com suas canções, que comecei a tentar escrever as minhas. Não que não tivesse tentado antes, pois lembro bem das canções de black metal que escrevia e gravava em meados de 2002, e até antes disso já havia me aventurado no mundo de cantor/compositor (minha família talvez se lembre de mim pequenininho, pegando o violão do meu pai, batendo nas cordas e cantando "badubadubarrom", que na minha cabeça era um grande jacaré que se aventurava nos rios de não-sei-onde). Mas no início de 2006, pela primeira vez na Dinamarca, comecei a me levar mais a sério. Escrevia canções mais estruturadas, e começava a grava-las como podia. Até depois de voltar temporariamente ao Brasil na metade daquele ano, continuava escrevendo, tocando, gravando, e sonhando.


Eram todas psicodélicas, lo-fi, e em inglês. Não lidavam com temas específicos, às vezes não faziam sentido algum (propositalmente), mas eram inspiradas em coisas que aconteciam no meu dia a dia. Por exemplo, a minha canção Honeymoon:


"Strumming my guitar like you strum the pink sun 
is not enough to reclaim my loved one"  

Que significa "dedilhar meu violão como você dedilha o sol cor-de-rosa não é o suficiente para recuperar a minha amada."

E a canção Apple Man and the Hat on his Head:


"Apple man and his hat
Stalking me in my bed
Grit his teeth made of juice
Lock me up in my snooze"

 
Que significa "Homem-maçã e seu chapéu, me olhando na minha cama, range seus dentes feitos de sulco, e me tranca no meu cochilo" (inspirada na pintura de Magritte).

Hoje, quando traduzo isso que escrevi há 2-4 anos, me pergunto porque não o fiz em português. De primeira assim, a tradução não rima bem como rima na versão original, mas não é nada que eu não pudesse ajustar. Além do mais, bandas como os Mutantes provam que esse gênero musical funciona muito bem na nossa língua.
Contudo, não só a idade, como também o fato de que eu praticamente não morava no Brasil, me faziam querê-las numa língua que gringos entendessem.

Esse é um caso comum entre todos os não-americanos, não-ingleses, não-australianos, não-jamaicanos, etc, etc, etc.
 
Shakira talvez seja o maior e mais recente exemplo de alguém que um dia cantou em sua língua nativa (castelhano), mas ao perceber as possibilidades econômicas existentes fora da América Latina, aprendeu e passou a cantar quase somente em inglês. De certo modo, digamos que seja como vender a alma ao diabo.
E nem precisamos ir tão longe pra achar mais exemplos: No Brasil, temos o próprio já citado Caetano Veloso, que gravou aqueles dois discos em inglês no início da década de 70; Gilberto Gil, que fez o mesmo no seu exílio; o grande Milton Nascimento, que também gravou discos no exterior com algumas músicas em inglês; e, claro, o mestre Tom Jobim, que teve várias letras de Vinícius de Moraes re-escritas para atingir o público norte-americano.

E não é só um fenômeno latino. Na Dinamarca, a maioria das bandas/músicos de pop, rock, etc, escrevem e cantam em inglês. Exemplos são Tim Christensen, Kashmir, Mew, The Raveonettes. E não podemos esquecer os meus novos vizinhos suecos, Abba.

Eu diria que existem ao menos três razões para que isso aconteça:

  1.  O interesse econômico. Há muitos anos o inglês se tornou a língua mais internacional do mundo, aquela que todos que querem se comunicar com estrangeiros aprendem. Então se você quer que mais gente no mundo ouça sua música e compre seu disco, escreva em inglês e supostamente já terá dado um passo mais perto do sucesso.É o caso de Shakira.
  2. Parecido com a primeira razão, mas com o interesse econômico fora do foco principal: a integração social. Você passou a morar em outro país, e por isso quer comunicar sua arte numa língua que o povo de lá entenda, não só pra poder vender, mas também pra ser simplesmente ouvido (no sentido mais literal do verbo). Seria talvez o caso de Caetano, Gil, e de Manduka, que escreveu em castelhano durantes seus anos nas terras vizinhas do Brasil e no México.
  3. Tempos modernos: parte dos jovens de hoje, cercados pelo idioma, canta em inglês porque é isso que ouviu na adolescência, e mesmo que eles não domem a língua por completo, conseguem se virar.  É provavelmente o caso de várias bandas dinamarquesas, brasileiras, e em certo grau, era o meu caso.  

E vejam bem, eu não estou aqui tentando explicar o fenômeno do inglês no mundo, ainda mais porque não tenho conhecimento suficiente para fazê-lo, e não tenho vontade alguma. Sei bem que ele não se limita à música: muito pelo contrário. Mas não é isso que estou discutindo. E minhas idéias são na maioria baseadas no que vivi nesses 23 anos.

O que é estranho pra mim é que tem muita gente que pensa que inglês é a única língua musical do mundo, e que algo escrito de outra forma não é tão legal.
 
Tudo bem se você é fã de rock e acha que inglês é a língua mais apropriada. Eu te diria que você é um mamão, mas tudo bem. Sim ou não, quantas vezes já não ouvi dinamarquês dizendo que sua língua é feia, e que qualquer música cantada nela é a coisa mais brega do mundo. Um erro triste, confundido com a simples verdade de que a Dinamarca poucas vezes produziu música boa (rs). E isso acontece no Brasil também, especialmente entre os mais jovens (dos quais já fui parte). São mentes fechadas para coisas novas.

E não é somente questão de gosto musical. Eu já mostrei música brasileira (sem ser rock) pra estrangeiros (que não são roqueiros) que disseram "gostei, mas não entendi nada", e logo se desinteressaram. Pelo menos na Dina, onde a maioria entende inglês o suficiente pra saber sobre o que se canta, existe esse conceito de "não entendo, logo não gosto", com relativamente poucas exceções.

Eu, Raphael, cresci num país onde inglês era presente, sendo que só na TV e no rádio. Ou seja, sem entender nada, aprendi a gostar do que ouvia pela melodia. Cantarolava o que fosse, não me importando com o que era cantado.     

Não que eu desdenhe letras de forma alguma, mas o que mais me interessa numa música não é o que cantam, mas como cantam. Se eu gostar de uma música e desgostar de sua letra, ainda assim vou ouvi-la, mas não o contrário. Por isso me identifico muito com cantores como Milton Nascimento e Dori Caymmi (o filho), que muitas vezes abandonaram letras em nome da melodia pura. É algo que venho fazendo em algumas composições mais recentes. E, felizmente, não é algo somente meu e do meu povo: a banda islandesa Sigur Rós, antes de mergulhar num mundo mais pop, compôs músicas e chegou a gravar um disco inteiro sem letras ou títulos, usando as vozes como instrumentos, algo que quebrou a barreira idiomática e os levou a grande sucesso internacional. Hoje em dia, eles já começaram a gravar músicas até em inglês, pois acho que ficaram famosos demais, mas mesmo assim, valeu o esforço. 



Cantar em inglês não é errado, ouvir música em inglês menos errado ainda. Eu não acho que estava errado ao fazê-los, e cheguei até ser contactado por um promotor britânico que queria usar músicas minhas numa coletânea inglesa (que cobrava caro demais), e também recebi uma boa crítica da revista dinamarquesa Gaffa, que me comparou à Syd Barrett e clamou que eu era a melhor música pop psicodélica já feita no país. Então eu posso dizer que o meu objetivo estava sendo alcançado.

Amostração à parte, eu não posso negar que uma razão fundamental por trás de todo o meu inglesacionismo, era o fato de que cantar em português me despia. Cantar na minha língua me colocava cara-a-cara com todos aqueles que conheci e conheço desde meus primeiros anos de vida, aqueles que me conhecem pra valer. Era como convida-los para entrar na minha mente, naquilo que sou, apesar de todas as mudanças naturais da vida. Enfim, me envergonhava. E acho que acontece o mesmo com muitos outros músicos e compositores por aí.

Outra razão é o fato de que mudei, como sempre estou mudando, e nos últimos 3 anos passei a ouvir mais música instrumental (jazz e seus derivados), mais música de outros países (de idiomas não-ingleses), e especialmente mais música brasileira que tudo. Consequentemente, os meus conceitos mudaram. Agora, prefiro cantar sem letras ou cantar em português, mas não excluo a possibilidade de voltar a escrever e cantar em inglês no futuro, ou até em outra língua. Tudo depende de onde meus ouvidos estarão.

Concordo com o francês em parte: pois se você morar num país tempo suficiente para incorporar sua língua, entendê-la de forma que não a entenderia através de estudos na sua terra natal, e chegar a pensar através dela, acho que sua alma não se perde. Pelo contrário, ela cresce.
Todavia, caso essa seja a escolha, acho importante não deixar de escrever e compor na sua própria língua de vez em quando. Mas essa é a minha opinião.





Quarta passada toquei uma música nova para a minha professora de canto. É uma canção chamada Serra das Russas, sobre o que senti quando fui informado que tinha duas semanas pra deixar a Dinamarca. É uma letra triste e saudosa, mas não que ela fosse entender. E nem precisava, pois ela disse que a melodia já era tão bonita que, apesar de não compreender as palavras, entendia profundamente o que eu queria dizer antes mesmo d'eu explicar.

E é isso que Música é: compreensão profunda e abstrata do que se sente e não se sente, através de notas, não palavras.

Mas convenhamos: palavras ajudam. Especialmente em casos como este:





Minutos depois, minha professora me perguntou se eu não considerara escrever a letra em inglês...

Haha.

domingo, 26 de setembro de 2010

O Exílio de Raphael(?)

Escrevo das terras verdes da Suécia, o país cuja natureza é a mais bonita que vi nesses cinco anos de Europa. As cidades em si não são muito diferentes das dinamarquesas, mas as montanhas, meus caros, as montanhas verdes e geladas, quietas e estranhas, são o que faz a diferença.

É o lugar que mais visitei desde que vim para a Dinamarca pela primeira vez, em 2005. A família de Gry, que me hospedava naquela época, sempre viajava de carro, e me levava a muitos lugares, principalmente pela Suécia.

Como poderia esquecer meus primeiros dias europeus? Cheguei na Dinamarca, e no dia seguinte já estava num carro no meio da vizinhança sueca. Os pinheiros, alces, ursos, lagos e uivos, me fascinaram.

Os dinamarqueses em geral têm uma certa rixa com seus vizinhos, assim como brasileiros e argentinos, que também se estende ao futebol. Contudo, eu nunca neguei minha paixão por esse país.
E no decorrer daqueles primeiros 12 meses na Europa, eu o revisitei várias vezes, conhecendo as mais variadas cidadezinhas, aprendendo a esquiar e passando o Natal ao lado de um lago congelado pelo frio, com direito a caminhadas pelas selvas nórdicas com Jonas, e às vezes até sozinho. O problema de ir sozinho foi, ao ouvir latidos que pareciam vir de lobos, fiquei apavorado, sai correndo, escorreguei no gelo e meti o joelho numa rocha imensa. Mal pude andar por um ou dois dias. Mas até disso lembro com carinho.

Cheguei a ir a cidade de Gotemburgo duas vezes, na última delas pra ver a banda Sigur Rós pela primeira vez, que felizmente naquela época ainda não gravava esses discos alla indie-pop-rock de hoje em dia, e graças a um amigo meu fui pro camarim e conversei com a banda inteira. Foi legal.




 Já alguns anos depois, peguei o avião com Katy e fomos à capital, Estocolmo: outra maravilha. Apesar de Katy ter ficado de saco cheio de mim em certo ponto, chegando até a quase brigar por causa do fato de que eu tinha achado o filme "Australia" um fracasso, nós aproveitamos bem a cidade, passeamos muito, vimos altas coisas, e dormimos de graça no apartamento de um casal que nem conhecíamos, graças ao método de couchsurfing . No final, foram dias bons para dizer tchau a minha amiga americana que estava voltando para o Texas poucos dias depois da nossa viagem.

Por alguma razão, ou talvez por razão nenhuma, eu nunca tinha visitado Malmö.

Malmö é a terceira maior cidade da Suécia, depois das já mencionadas Gotemburgo e Estocolmo. Fica no sul, na região de Skåne, e, de trem, fica a 35-40 minutos de Copenhague, a mesma distância de Roskilde (onde eu morava) pra lá.
Não precisava de carona, e podia voltar no mesmo dia se quisesse. Vários amigos meus na época de intercambista em 2005-2006 fizeram isso, mas eu não.


Muitos dinamarqueses brincam dizendo que Malmö é tipo uma segunda parte de Copenhague, um bairro grande. Afinal, muitos deles moram lá, onde o custo de vida é relativamente mais barato, as leis imigratórias menos rígidas, e o salário menor - algo que os levam a continuar estudando/trabalhando em Copenhague.
E também a cidade não é lá muito diferente: bem plana, com poucos prédios (nenhum deles com mais de três ou quatro andares), antiga, bem cuidada, e com a exceção de poucos detalhes (como os ônibus verdes), e, claro, a língua oficial, é a mesma coisa. Entender sueco para dinamarqueses é mais ou menos como brasileiros querendo entender espanhol, e vice-versa. Então é meio que tranqüilo.

Agora, do nada, estou morando aqui....  

Tudo começou quando...

Quando voltei pra Dina, e fui morar com Nadia em meados de 2007. Eu não sei bem o que pensávamos, mas acho que já havia uma certa noção de que não daria pra enrolar as autoridades locais para sempre.

Eu passei os primeiros seis meses sem um visto oficial, pois eles ainda estavam analisando meu processo, que, digamos, era diferente, pois eu queria entrar numa escola onde tocaria música o dia inteiro, com diversas bandas, criando um repertório, para depois sair por aí tocando, e no fim do mês recebendo um salário legal. Era uma escola que, a não ser pelo aquecimento vocal diário no início das manhãs e das tentativas esporádicas (e fracassadas) de se criar aulas de teoria e prática musical, não tinha horários fixos (a não ser chegada e saída), e onde várias vezes você fica morgando sem saber o que fazer. Não que eu não tenha aprendido muito lá, pois os professores são ótimos (foi um deles me converteu ao jazz), e você evolui na sua musicalidade, aprende a lidar com músicos e bandas diferentes, etc, tudo bem prático. Mas, de qualquer maneira, é uma escola pra jovens dinamarqueses que geralmente não decidiram que rumo tomar na vida, que educação escolher.
Era a única escola na qual eu poderia começar em qualquer dia do ano - algo que se encaixava bem às minhas necessidades -, e na qual eu seria pago, pois já que meu visto era de estudante, eu não podia trabalhar em lugar algum, então pra mim isso foi um bônus.

O visto finalmente chegou, comecei a estudar lá em dezembro de 2007, fiz novas amizades, aprendi muito, mas como não passei no teste pra entrar no MGK (musikalsk grundkursus), fiquei meio perdido. MGK é o curso que te prepara pra entrar no Conservatório de Música, que aqui é o nível mais alto que você pode atingir como músico. É bem concorrido, com bons professores, e por isso é bem difícil de entrar.

Foi a primeira dificuldade: como renovar o meu visto até o ano que vem, quando poderei tentar entrar de novo?

Graças aos meus professores e à coordenadora, que escreveram uma carta me elogiando e dizendo como eu era importante pra escola, consegui renovar meu visto por mais um ano na mesma escola.

No início de 2009, passei no teste para entrar no MGK, e parecia ter meu rumo definido. Disse adeus à Greve Produktionsskole, e mandei uma nova aplicação para um visto de estudante no MGK. Enquanto esperava por ele chegar, as aulas começaram e eu comecei a ir, e pra minha felicidade era justamente aquilo que eu queria fazer.

A bomba veio então. Quatro meses depois de já ter começado o MGK, recebi uma carta da Imigração dizendo que essa escola, para qual eu ia duas vezes por semana, não era suficiente para eu ganhar um novo visto, e eu tinha 30 dias para deixar a Dinamarca.

Choque.

Mas a carta também disse que eu tinha o direito de reclamar, e com a ajuda da diretora da nova escola (que ficou furiosa com a notícia) e de Nadia, fizemos uma reclamação com argumentos bastante inteligentes, que me deram esperança de conseguir o safado do visto. E enquanto eles reanalisavam meu caso, eu tinha o direito de ficar.

Continuei indo para o curso, me sentindo vitorioso. Terminei o primeiro ano letivo com boas notas, novos amigos, uma banda onde eu tocava e cantava música latina e ganhava um certo dinheiro, enfim, com a vida encaminhada.

Daí, poucas semanas antes de visitar o Brasil, recebi uma nova carta, dizendo que meus argumentos não eram válidos e que eu tinha que deixar o país em 30 dias. Brincadeira, bicho. Com pouco tempo e grande estresse, Nadia e eu preparamos novos documentos, e mandamos uma nova aplicação, dessa vez para união de família, já que ela e eu moramos há um bom tempo juntos e temos documentação para provar.

Temos tudo que eles requeririam para a aprovação. Mas, claro, a Dinamarca tem uma lei que diz que se você não é cidadão dinamarquês e quer se casar na Dinamarca (com um dinamarquês), os dois têm que ter 24 anos, ou 23,5. Na verdade, casar até pode, mas se vocês não tiverem 23,5 anos de idade, o casamento não lhe garante o visto.


Então, mandamos essa nova aplicação mais como uma desculpa que nos ganhasse tempo, pois já tínhamos Malmö na cabeça. Sim, Malmö, ligada a Copenhague pela ponte do amor, para onde muitos dinamarqueses apaixonados se mudam com seus amados(as), pois na Suécia não existe a tal Lei dos 24 anos.





A mudança

Desde que recebemos o primeiro não, em Dezembro de 2009, Nadia e eu começamos a procurar por apartamentos na cidade sueca. Entretanto, pelo fato de crermos que nossos argumentos eram fortes e que no fim eu conseguiria ficar por pelo menos mais um ano, não demos tanta ênfase à procura quanto talvez devêssemos, e todas as pessoas com as quais conversei tiveram a impressão de tudo se resolveria sem problemas.

Mas achar apartamento em Malmö é muito difícil.

Tão difícil que, uma conhecida minha brasileira e seu marido dinamarquês tiveram que comprar um apartamento aqui pois não conseguiram alugar nada. Mas Nadia e eu não temos tanto dinheiro assim. Então, continuamos a procurar, e quase conseguimos um.

Um rapaz para o qual tínhamos escrito ligou pra Nadia e perguntou se poderíamos ir olhar o apartamento na quarta ou domingo, de preferência no domingo, e se a gente gostasse, já poderia se mudar. Então ficou combinado de irmos lá no fim da semana.
Estávamos prontos, literalmente saindo da porta, quando Nadia ligou pra ele só pra confirmar o horário, e ele disse: "Ah, você não recebeu minha mensagem? Eu já entreguei o apartamento pra outra pessoa na quarta-feira." Ah, o ódio. Por que então ele não pediu pra gente ir na quarta? O fato é que perdemos a chance. E fora ela, não chegamos nem perto de conseguir algum outro lugar. Se você achar um anúncio de apartamento 1 hora depois dele ter sido escrito, pode esquecer. Uma vez ligamos pra uma mulher que disse que 50 pessoas já tinham ligado pra ela, poucas horas depois d'ela ter colocado o anúncio.

Quando o segundo não chegou em meados de junho de 2010, apesar de não crermos que eu receberia um sim, sabíamos que estaríamos comprando tempo, e que como era um novo caso, uma nova aplicação, eu poderia reclamar novamente e ganhar ainda mais tempo. Assim, fui pro Brasil com Nadia e tive umas férias incríveis.

E voltei pra Dinamarca sem problemas.


Até que, no início desse mês de Setembro, recebi o terceiro não. E dessa vez dois policiais bateram na minha porta e fizeram questão de me entregar a carta pessoalmente. Eles foram simpáticos, mas a notícia que traziam era a pior de todas: minha aplicação fora negada, e dessa vez, mesmo que eu reclamasse, teria que esperar pela nova resposta na minha terra natal, o Brasil. Haja dinheiro pra ir e voltar. Não só isso: Dessa vez eu tinha só 15 míseros dias para deixar o país! E não só isso: Nadia tinha comprado passagens com a irmã, tia, e mãe para Kraków, Polônia, para celebrar os 50 anos da mãe. Ou seja, dos 15 dias que eu tinha sobrando, ela passaria 4 longe de mim. Foi um terror. Pensei que dessa vez não tinha escapatória. O jeito era voltar pro Brasil, e que Nadia me seguisse depois. O que ela faria lá eu não sei, mas enfim. Foi um chororô, uma tristeza profunda, e ao mesmo tempo um alívio de saber que iria pra um lugar onde não precisaria renovar o visto a cada ano. Mas ter que recomeçar tudo de novo seria tão difícil, e diferente...

Mas eu tinha subestimado meus amigos daneses.

E quando eles se deram conta da gravidade do problema, começaram a mover peças, contactar seus amigos, parentes, enquanto Nadia e eu procurávamos por soluções.

Chegamos a achar um quarto em Malmö por conta própria, mas não deu certo.

Felizmente Søren, o baterista da minha banda Latin Fanatics, contactou sua prima que mora em Malmö com o namorado (ambos dinamarqueses), e eles, que têm um quarto vazio no apartamento que moram até fevereiro de 2011, decidiram nos ajudar.

Resumindo: aqui estou eu, escrevendo-vos das terras fartas da Suécia, num quarto maior que o apartamento que tínhamos em Roskilde, esperando pelo visto que deve chegar em alguns meses sem problemas, pois graças ao fato de que moramos há mais de 18 meses juntos, nem casar precisamos (casamento vai ter que esperar alguns anos!). E assim que tivermos mais documentos, vamos começar uma nova e árdua procura por um apartamento maior, só nosso, onde possamos nos estabelecer e viver, felizes, a partir de 2011.



Tudo vai se encaixando, e espero que dessa vez dê tudo certo. Com o visto que receberei, só vou precisar me preocupar com renovação daqui a 5 anos, quando poderei obter o visto permanente.

Viva a Suécia, viva Nadia, viva Søren, minha família, e meus amigos!


Ah, e eu cortei o cabelo! (Nadia nem viu ainda, pois tá em Roskilde cuidando de umas coisas). Surprise!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Cachoeira



(música linda)

Depois de mais ou menos 35 dias, voltei.

Mudado, esquecido, desacostumado e saudoso, eu voltei.

Não houve tempo suficiente para ver muitos, ou para ver aqueles que vi o tanto quanto gostaria de ter visto. Mas é sempre assim. Nadia finalmente conheceu os personagens das histórias que venho contando há mais de quatro anos. E eu, por um certo tempo, voltei a fazer parte delas.

Contemplar as cidades que contemplei, as paisagens, a música e as vidas que presenciei, tudo isso encheu o meu coração ainda mais com o que Ivan chamaria de ufanismo, mas que pra mim é simples afeição e emoção de quem viu e sabe que aqui fora não há nada igual. Pois por mais que eu analise, elabore e complique as explicações dos porquês, o fato é que por trás disso tudo existe um amor e uma ligação imensos dentro de mim, os restos de uma saudade infinita.


Obviamente, gosto é gosto, e tem gente que não importa quantos anos morasse no outro lado do mundo, não olharia o Brasil do jeito que eu olho. Afinal, como já devo ter escrito em algum post anterior, essa história de Brasil começou em Salvador, não aqui. Aqui eu só fiz cultivar.

Lembro que, dois dias antes de ir ao Brasil, fui a um show de Caetano Veloso lá em Copenhague. Sentei na segunda fileira, junto com meu amigo dinamarquês Niels, e várias senhoras brasileiras que não conhecia. Começamos a conversar e tal, e quando ouviram que eu era de Recife, chamaram uma senhora recifense que se sentava num outro lugar. Ao ouvir que eu ia visitar Recife, ela disse: "Boa sorte." O sarcasmo estampado em sua cara. E pelo que entendi, ela já mora por aqui há anos.

Não vou fugir da realidade, nem vou deixar de entender porque tanta gente quer sair do país, e porque tanta gente valoriza tanto o que é daqui de fora, pois eu fui e sou o mesmo que eles são. É fácil olhar através do vidro e sorrir, romantizando o que não se vive no dia-a-dia. Sei que o Brasil não se resume à música, à viagens de carros e pontos turísticos. Tem que andar pra poder conhecer. E em 2007 eu já tentei andar, voltar, já tentei ficar, e vi que não dá. Claro que, dentre as minhas razões encontra-se uma morena branca, dinamarquesa deusa dos meus sonhos, mas isso não esconde o fato de que é difícil gostar de nescau depois de provar toddy de verdade.

A verdade é que se eu pudesse viver do jeito que vivo em Roskilde no Brasil, com a liberdade que tenho (em todos os aspectos possíveis), já estaria lá (com Nadia, que inclusive tava aprendendo português muito rápido). Porque pra mim o Brasil é o que tem de melhor em cultura, paisagem, música e gente. 

Enfim, deu vontade de ficar, de prolongar, de voltar; e apesar de ao chegar em casa eu ter lembrado as outras razões pelas quais escolhi morar tão longe do meu país, ainda estou meio desordenado, mirando as lembranças que da parede adivinham meus pensamentos, fazendo perguntas sem interrogações. Mas não há nada novo aí e não há nada novo aqui. Vou me reacostumando de pouco em pouco, reencontrando meus amigos daqui, e curtindo a vida do jeito que curtia antes.

Feliz e satisfeito, porém cauteloso.

Sei que em breve vou subir ainda mais, e ficar ainda mais longe do meu país. Pelo menos Nadia e eu concordamos que daqui a um tempo queremos passar uns dois anos no Brasil. Vamos ver.

Assim segue a vida.

O sol da serra se pondo atrás de um cacto, as cachoeiras caindo em Bonito, a ilha dos Frades se aproximando, as ondas de Guarajuba nos derrubando, o Santos de Ganso jogando sob a chuva, e os meus pais me recebendo.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Um pouco antes de ir

Eu sempre penso em escrever aqui mas sempre termino tocando violão. Agora que finalmente resolvi dizer algo, não me sinto muito inspirado. Mas enfim.

Vou ao Brasil semana que vem, dia 7 de julho. Chego em Salvador e fico lá dez dias, depois vou pra Recife, e depois de duas semanas volto a Salvador, onde passarei mais uns nove dias e depois volto pra Dinamarca. É uma sensação estranha; uma ansiedade apreensiva. Agora fazem mais de três anos desde a última vez que estive lá, e quero ver como reagirei. A noção de Brasil se tornou tão romântica pra mim que às vezes me pergunto se sou realmente brasileiro patriota, ou se simplesmente gosto de ser diferente aqui na Dina. Acho que um pouco dos dois. Mas pelo menos sei que a hora é certa, pois com tanto interesse em tudo que é de lá, seja música, folclore, natureza o que for, estarei indo a dois centros culturais maravilhosos, estarei matando a minha sede com coca-cola. Serei um verdadeiro turista. Estou levando uma bagagem imensa, com poucas roupas, pra que lá possa me encher de instrumentos, livros, mares, árvores, cores e olhos.

Não vejo a hora de revê-los.

domingo, 18 de abril de 2010

Sonho C.A.B.

Depois de curvas fechadas e contrárias, carros antigos e inexistentes, ruas estranhas e mal recordadas, eu digo adeus a meu amigo, e entro com uma mochila em minhas costas. Nenhum vigia, nenhuma saudação. Não sei se estou retornando, ou se sempre estive aqui.
O céu está nublado, o campo está vazio, os prédios desgastados, e o chão despedaçado. O vento sufocou as correrias e a incompetência arruinou a determinação. O pau-brasil se desvaneceu. A sombra e o orgulho se misturaram e se transformaram em uma decepção maior que a própria lembrança.

Agacho-me, deixo a ponta dos meus dedos correrem pela a areia espalhada na calçada, procurando um sentimento que esqueci aqui há muitos anos, um boneco que enterrei e jamais reencontrei. O que me sobra é uma reminiscência sem sentido. Só.

Cada sonho apaga mais, cada pesadelo assusta mais. É meio-dia e não tenho onde me sentar. Os pulos, os risos, pandeiros, o descaso e a ilusão da eternidade. Quem me guiará?
O pomar dissipado dá lugar a muros de cimento, que cortam cotovelos, arranham cabeças, e apertam corações. Não lembro nem o que existiu ali, mas me restam a cicatriz no joelho e as latas amassadas.

O resto está longe, inalcançável, irreparável, inaceitável, indistinguível, inalterável, indisponível, indiscutível.

Penso em ir à piscina, à quadra, mas tenho medo de não achá-los. Já me são vagas as manhãs, as toucas, as quedas, os jogos, a indisposição e a ansiedade. Quero correr, mas minha mente não entende. Frustração e indignação invadem meus olhos cerrados.

Quem vos deu o direito de vender minhas memórias, de bulir meu saudosismo, de alterar a amplitude das minhas verdades ?

Eu nunca quis voltar, e hoje não posso mais sair. Tento encontrar, manifestar, reassumir, cantarolar, mas sei que é algo que há de me seguir até mesmo depois que o inverno revés chegue, e continuará a me assombrar com suas loucuras pitorescas até mesmo depois de meus dias acabarem. Não quero sair, mas queria poder voltar. Pra sempre sentado naquela sala, mergulhado em risadas alheias, submerso em lágrimas fáceis, batucando o barulho incessante, admirando o idealismo velho e bonito de quem me ensina, sem saber que amanhã é muito mais que um novo dia, e que ontem foi muito mais que um adormecer. 

Sou um uirapuru atrasado, já não tenho mais a quem silenciar.


sexta-feira, 5 de março de 2010

Primavera, verão, imigrantes, imigrantes...

Parece estar chegando. Depois de dois meses brancos de neve, nos quais desgastei  meus sapatos como nunca pra que não escorregasse no gelo da calçada, veio um dia ensolarado. Duas vezes. Está começando a amanhecer mais cedo e anoitecer mais tarde.
Ontem dormi na casa da minha sogra em Copenhague, e hoje pela manhã, no caminho de volta pra casa, quase que coloquei meus óculos de sol. Só resisti porque achei que seria uma cena ridícula: eu de jaqueta, cachecol, e óculos escuros.

Foi realmente um dia lindo. Ao chegar em Roskilde, cidade onde moro, fui a biblioteca, e depois comprar lâmpadas com Nadia. Até a janela ficou aberta por uns momentos enquanto limpávamos o apartamento. O que é bizarro, pois apesar do solzão ainda estava fazendo 1 grau acima de zero, e um vento incrivelmente gelado. Mas o sol realmente muda a cabeça das pessoas. A minha vida inteira eu desprezei previsões de tempo, e meteorologia em geral.  Mas também, nada fazia diferente. Era sempre o mesmo calor em Recife. O ano inteiro. Na Flórida, foi a primeira vez que dei importância, por causa das poucas semanas abaixo de 20 graus no fim do ano/início do ano. Mas aqui, a sua vida depende disso. Muita neve significa trens e ônibus atrasadíssimos. Muito sol também. Às vezes até chuva. O verão é tão instável que mesmo nos dias mais quentes de julho você tem que assistir a previsão do tempo, pois no fim da tarde pode dar uma esfriada e você deve sempre ter uma jaqueta consigo, não tão grossa e quente como a que se usa no inverno, mas uma que te proteja. Ou basta um grupo de nuvens cobrir o sol que pode esfriar temporariamente. É bom porque refresca, mas tem toda a adaptação pra alguém que vem do nordeste brasileiro, que muitas vezes na sua infância saía só de shorts pelo dia ou até pela noite pra brincar com os amigos. Aqui eu vejo as crianças mais jovens completamente empacotadas, é engraçado. Andam desajeitadas, brincam com a "fumaça" que sai quando falamos e respiramos no frio. Coisa que, por sinal, eu fiz muito por aqui nos dois primeiros anos após minha chegadas.

Mas então, eu cheguei a considerar o fato de minhas futuras crianças crescerem por aqui. Não só pelo frio de 6 meses (ou 8-9 meses se você for brasileiro), mas pelo fato de que elas não falarão português. Afinal de contas, por que falariam? Com Nadia eu falo em dinamarquês e inglês; até comigo mesmo (como escrevi no primeiro post desse blog), às vezes olvido o português por completo. A maior parte do português pronunciado por aqui vem das músicas que ouço. Ou dos gritos de quando assisto futebol.
Meu professor de piano na escola de música é filho de português com dinamarquês (acho que o pai que vem de Portugal), e ele não fala português algum. Como é que meus filhos vão falar com seus avós, tia, e toda a minha familia no Brasil?
Eu comentei isso com Nadia e ela disse que quando tivermos filhos, eu devo falar um pouco português com eles, cantar português quando eles forem bebês. Quem sabe até não os coloquem numa escola de português se achar alguma, ou eu mesmo possa ensina-los em casa. Contanto que eles aprendam a língua de onde quer que estejamos morando, seria legal.
E a cultura brasileira? Sinceramente, não discuti isso a fundo com Nadia, mas prefiro a nossa cultura um milhão de vezes à dinamarquesa. Apesar d'eles terem umas tradições bonitas por aqui e tal, antes dos meus filhos nascerem, realmente vou ao Brasil comprar tudo que é livro de folclore, as historinhas que eu ouvia e tudo o mais, vou encher a cabeça deles do Brasil, de saci pererê a papa figo, boto cor-de-rosa, uirapuru, comadre florzinha (eu só sei histórias de dar medo), mas vou lembrar outras uma outra hora. E deixar a parte européia pra a mãe.
Tudo isso porque já posso até imaginar, no futuro, eles sendo bem próximos a família de Nadia (que é bem pequena), e completamente estranhos à minha (gigante, espalhada de norte a sul do país). Nem que a pau! Cheguei até a oferecer pra Nadia: "vamos nos mudar pro Brasil, ir à algum lugar no Rio do Grande Sul (onde é mais parecido com aqui), e criar nossos filhos lá." hehe, mas duvido muito mesmo, vamos ficar por aqui. Meus filhos não serão brasileiros! Desde quando virei tão nacionalista? Um horror.

Talvez nossos filhos nem falem dinamarquês, mas sueco. Afinal de contas, com os problemas que ando tendo com visto daqui, só tendo permissão pra estudar sem trabalho, tendo problemas pra renovar todo ano, nosso plano é ir pra Suécia mesmo. Tem uma ponte entre Copenhague e Malmö, que faz com que essa grande cidade sueca fique a meia-hora da Dinamarca. É o que chamam de ponte de amor por aqui. Como a Dinamarca tem uma das leis mais complicadas, exageradas, burras e anti-imigrantes do mundo, muitos daneses que se apaixonam por gente como eu e você se mudam pra Malmö. Lá, casados ou como parceiros, eu ganho visto de 5 anos na Suécia (com direito a trabalho!), e depois dos 5 anos posso ganhar passaporte sueco e morar onde quiser na União Européia. Então mesmo que consigamos renovar meu visto, já aplicamos pra vários apartamentos, e esperamos conseguir um em breve, pois, apesar d'eu estar começando a ganhar dinheiro por aqui como músico, ainda preciso de um back-up, alguém que traga mais dinheiro certo e que me deixe ajudar mais em casa. E assim possamos morar num apartamento maior que o atual.
Pra Nadia não vai mudar tanto, ela vai transferir a escola pra Copenhague e arranjar um emprego em Malmö. Eu vou continuar estudando onde estudo (a viagem vai durar quase duas horas, mas somente duas vezes por semana), vou tocar em Copenhague, Malmö, e arranjar um emprego part-time na Suécia.
Então, meus filhos, ao invés de escreverem "Tak" (obrigado), escreveriam "Tack", hehe. Não, é mais que isso. É como se, ao invés de português, eles aprendessem espanhol. Mas se quisermos, provavelmente já poderemos nos mudar de volta pra Dinamarca antes de ter qualquer criança.

Pois essa é a vida do imigrante.

Em julho, eu e Nadia vamos ao Brasil, por um mês. Meu plano é passar duas semanas em Salvador e duas em Recife. No meio do inverno! Só espero, por causa dela, que não chova tanto. Sei que não fará frio como aqui, mas enfim. Já a alertei tanto quanto ao fato de que lá será "inverno" (25 graus em Recife? hehe), que ela até ficou com medo de se decepcionar. Espero que hajam dias de sol enquanto estivermos lá.
Os livros de folclore, só daqui a uns anos. Mas vou levar o mínimo possível, pra poder me encher de música brasileira e trazer pra cá. Instrumentos, LPs, roupas... é.
Ah, acho que ainda não falei pra ninguém, mas fim desse mês estarei na  Hungria com um amigo. Ele é de lá, então a hospedagem não custará nada. Compramos a passagem há muitos meses atrás, quando as vacas ainda estavam gordas, porque o violonista de flamenco Paco de Lucia vai tocar lá, e não virá pra Dinamarca durante a turnê... e eu tenho que vê-lo!

Ah, não tô escrevendo nada com nada. Também, meia-noite e meia... é difícil me concentrar ouvindo o disco do Yamandu Costa.

Um abraço.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Neve

Gente do céu, tá nevando muito.

Acho que até essa semana, a vez que eu tinha experimentado maior quantidade de neve foi no meu primeiro inverno de verdade, aqui na Dinamarca, em 2005-06. Lembro que nevava bastante e constantemente, e foi uma alegria porque eu nunca tinha visto neve antes. Dava pra fazer tudo que se sonha, de snow angels a bonecos de neve.
Contudo, os invernos subseqüentes foram muito fracos. Talvez tenha nevado uma vez em cada, pro pouco tempo, e era neve que mal cobria o chão, sequer cobria o chão, derretia logo, chovia muito, uma desgraça...

O inverno atual é igual, ou pior que o me primeiro! Vem nevando constantemente, mas não tanto quanto de sexta passada pra sábado. Quando saí com Nadia pra irmos ao shopping em Høje Taastrup ficamos chocados com a branquidão, parecia que estávamos na Groelândia. Acho que afundava quase até nossos joelhos. Uma felicidade pra mim. O resto odeia. Eu os entendo, afinal, experimentar isso quase todo ano deve encher. Eu também fico de saco cheio depois de certo tempo, porque a neve dificulta andar, pedalar, dirigir, correr, e tudo o mais. Fora que quando a primavera se aproxima mas teima em começar, a ansiedade pelo calor de verão só cria mais ressentimento contra o pobre inverno.

Felizmente, a Dinamarca é bem preparada pra isso, né. Muitos carrinhos e caminhões que empurram a neve, todos os moradores têm que limpar a calçada na frente de suas casas (ou são multados!), então dá pra andar, com alguns escorregões aqui e ali, mas dá. Tem gente que ainda anda de bicicleta, uns loucos. Dia desses vi uma menina cair com a bicicleta ao lado da biblioteca. Tadinha.
É complicado atravessar a rua porque depois de varrer a calçada e a própria rua, a neve fica toda acumulada entre as duas, então às vezes não da pra ver onde uma termina e a outra começa. Na hora que o sinal abre tenho que ou pular uma montanha branca gigante, ou dar volta ao redor com medo dos carros que vêm vindo, ou esperar pelo sinal abrir já na frente da montanha, que não é lá muito seguro lembrando que a montanha é realmente espaçosa.

Escolhemos o dia mais frio pra sair. Mas desde então só me aventurei uma vez, por causa da escola de música. Teve uma nevasca ante-ontem, mas agora tá tudo calmo. O meu novo alarme é o vizinho. Nós moramos num "edifício" de dois andares (ou um andar? depende que padrão você segue, aqui eles me confundem às vezes), e ficamos no terraço mesmo, então a alguns metros da nossa janela tem uma casa. Toda noite de neve o vizinho resolve me acordar lá pelas 6 da manhã com sua pá. O cara é esperto, mas um saco. Sempre tirando a neve da frente da porta, e da garagem, pra que quando o resto da família acordar tudo estiver bem. Às vezes ele também faz isso na noite antecedente. Deve ser um hobby. A primeira que acordei com o barulho pensei que tinha um animal tentando entrar pela janela.

Enfim, o melhor é quando neva num dia, e no dia seguinte faz muito sol. O frio é o mesmo, às vezes até mais direto porque o vento fica mais forte, mas é uma maravilha. O brilho do sol se juntando ao alvo da neve, dá a impressão de que são milhares de diamantes, verdadeiras estrelas terrestres, brilhando, fulgurando, e cegando. Mas hoje só dá nuvem.

Vi na TV que é o inverno mais frio dos últimos 23 anos, por causa de um certo vento ártico que vem a cada dez anos atazanar a vida danesa. Eu acho estranho porque pra mim é a mesma coisa que o de 2005-06, e em em 2005-06 a neve foi até mais bem distribuida, então ficava mais branco por mais tempo. Mas talvez eu esteja exagerando porque afinal foi a primeira vez que vi neve, lagos congelados, pernas quebrando um e afundando no outro... Bons tempos!

Não sei bem o que quis dizer com esse post, mas como realmente não tinha escrito nada há tempos, estou postando aqui. Sugestão do meu pai. E acabei de notar que é a segunda vez que posto algo pra valer, e pela segunda vez o tópico envolve o frio invernal. Criatividade infinita.




obs: O nosso aquecedor é uma merda, viu. Espero que achemos um melhor em Malmö. Outro dia escrevo sobre nosso futuro nas montanhas suecas. Ah, e essas fotos são da sexta passada, antes da nevasca! Agora tá ainda pior!